
"A fumaça saindo da boca, a folha que aos poucos
vai se manchando por uma historia de amor marcado por sangue e sorrisos
(não necessariamente nessa ordem). O silencio que grita, o coração que
dói. Eu. Eu desacreditando do amor. Conto-lhes agora a historia do
amor, de um amor que como todos os outros amores (não os dos livros, ou
aqueles das grandes telas, mas os amores da vida real) não tiveram um
final feliz, ou na verdade nunca tenha começado direito. Conto-lhes a
história do meu amor por um amor que não me ama… Novembro, primavera.
Nasce um sorriso em meus lábios com nosso primeiro dialogo ridículo, o
nosso primeiro ‘oi, tudo bem?’, nasce ali o nosso primeiro contato de
certa forma eternizado pelo vento quente, e pelas estrelas que foram
testemunhas. Nasceu naquele domingo, testemunhado pela lua, um amor que
agora, no inverno dilacera-me. Foi tudo tão perfeito, o começo da
amizade, as confidencias e promessas de que um nunca deixaria o outro,
Tudo tão puro, tudo tão excepcionalmente perfeito, que até assusta. Mas o
amor é assim, certo? Excepcionalmente inadequado, nasce nos dias mais
inesperados e te destrói. O amor, é assim que ele é: louco,
irregular, ilegível e perfeitamente bom quando não machuca,
magnificamente mágico, que faz você acreditar que o para sempre é na
próxima semana, que te faz embarcar nos sonhos mais incrédulos. O
meu amor por ele não foi diferente, não é diferente. O nosso amor foi
assim um dia, devorador de sonhos incrédulos, causador de toda nossa
jovem coragem de desbravar o mundo juntos e de mãos dadas, sem ligar
para que os joelhos se ralassem, sem ligar para que na velhice a pele
estivesse com rugas, apenas se importando com a alma um do outro. Mas
não seria diferente com nós dois, não fugiríamos a regra, ou melhor
dizendo, nem tentamos fugir a regra. Ele se quebrou, junto com os
corações de dois jovens credores da felicidade. Eu, fui egoísta e você
também. Dois amores errantes. Eu, o seu amor, que só sabia amar de um
jeito. E você, ah você, o meu amor de todas as vidas passadas e futuras
que só sabia amar do seu jeito e que não abaixava e nunca abaixará a
guarda. Dois estúpidos, dois que um dia se tornaram apenas um. Você e
eu, um dia nós. Agora apenas você. Agora, com muita dificuldade de
existência, apenas eu. O tic-tac do relógio, a luz forte e as lentes dos
meus óculos bifocais, minhas pernas levemente cruzadas e meu corpo
cansado. Eu escrevendo sobre o nosso novembro, a primavera. Eu agora
afirmando sobre o nosso inverno, nada florido e apenas gélido. Mundo
girando sem perder o equilíbrio, mas eu me desequilibrando sem você; sol
nascendo todas as manhãs, e eu morrendo aos poucos todos os dias.
Casar-se com a noite, esquecer-te e amar apenas a carne dos outros.
Deveria abusar da promiscuidade. Deveria, quer dizer que eu não consigo
não ser de você. Não consigo ser nem de minha própria autoria. Foi
entrega desde o primeiro contato, foi amor até mesmo antes de ser. Foi
você, foi eu e fomos nós e agora o ciclo natural das coisas voltam,
agora somos apenas um em cada lado, estranhos um para o outro, mentira,
na verdade mais honesta, você sempre vai saber do meu sorriso e dos meus
olhos, você sempre soube me interpretar antes de todas as outras
pessoas, mas agora eu não reconheço-te mais, não sei mais quem é essa
pessoa dos olhos vazios e sorriso cheio de ironia. Mas eu ainda
reconheço a sua alma, e ela é doce e não essa amargura que você tenta
transparecer. A minha voz baixa, não consegue ser maior que esse
silencio que me rasga ao meio, mas eu tento, todas noites eu clamo,
clamo seu nome e grito que te amo. E essa folha que agora é manchada por nossa história, é apenas mais uma do nosso capitulo chamado: Nós dois."